A <i>rentrée</i>

José Casanova

Todos os anos, por esta altura, o regresso dos partidos à actividade política – ou seja, a rentrée… - constitui um dos temas favoritos dos órgãos da comunicação social dominante.

E todos os anos, esses mesmos média dizem e escrevem o que no ano anterior disseram e escreveram sobre o tema em questão, naturalmente, e como é da praxe, sempre submetendo o PCP a um especialíssimo critério - que é, afinal, o critério que utilizam durante todos os outros períodos do ano…

O Diário de Notícias de 26.8, publica uma peça na qual procede à descrição, em geral valorativa, do que serão as rentrées dos outros partidos – Ah!, as «Universidades de Verão», importadas da Europa pelos partidos da política de direita e, por isso, cheias de modernidade; ah!, o «Fórum Socialismo», colhido pelo BE nos jardins de lilases da esquerda moderna e, por isso, podre de chique… E fecha a peça com a rentrée do PCP, proclamando: «no PCP não há surpresas» - assim empurrando o leitor para a ideia de que as rentrées de todos os outros partidos estão carregadas de «surpresas», só não as havendo, às «surpresas», no PCP… E o DN vai ao ponto de precisar com extremo rigor o momento da «rentrée comunista»: exactamente «no comício que encerra mais uma edição da Festa do Avante» - repare-se: no comício de encerramento, e não na Festa que abre dois dias antes, e da qual o comício é um dos muitos e ricos elementos que a integram.

Já agora, recordemos uma vez mais que se é verdade que o termo rentrée se aplica como uma luva à generalidade dos partidos, mais verdade é que tal vocábulo não tem o mínimo cabimento no que toca ao PCP. É que não faz sentido falar de rentrée, no caso de uma organização cujos militantes, durante os meses de Verão, não só não fecharam as portas do Partido, como se envolveram intensamente no combate à política das troikas e na luta por uma política patriótica e de esquerda. Nem faz sentido falar de rentrée, no caso de um Partido que, não apenas não fechou para férias, como durante esse tempo, graças ao trabalho e à criatividade de milhares de militantes, construiu a maior e a mais bela festa do nosso País.

Não faz sentido, enfim, falar do regresso de quem não partiu...




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